132 - O Que é Marxismo ?
A teoria marxista é um engano que se identifica como "ciência", o instrumento perfeito para tiranos e intelectuais preguiçosos ou mal-intencionados.
Marxismo é uma teoria, criada por Karl Marx e Friedrich Engels, que ambiciona ser uma explicação geral da organização econômica e social do mundo. Marx e Engels se conheceram em 1844 e trabalharam juntos pelo resto de suas vidas. Uma de suas primeiras obras foi o Manifesto Comunista, publicado em 1848. Engels, filho de um rico industrial, sustentou Marx e sua família, enquanto Marx passava anos na Biblioteca Britânica pesquisando e escrevendo O Capital, um livro que ficou inacabado quando ele morreu em 1883.
O marxismo parte da ideia de que a sociedade é dividida em classes, de acordo com sua relação com os meios de produção, e de que há um conflito natural entre essas classes. Segundo o marxismo a classe trabalhadora derrubará a classe dominante - a burguesia - estabelecendo uma sociedade sem classes na qual os meios de produção serão possuídos de forma coletiva.
O marxismo é, ao mesmo tempo, uma filosofia política e um plano de ação, que se apresenta como uma teoria “científica”. O marxista enxerga o mundo exclusivamente pela ótica das relações econômicas - tudo se resume a dinheiro - e considera que a “luta de classes” é a principal força da história. Todo evento pode ser apresentado como um confronto entre um opressor e um oprimido. Por isso o marxismo é classificado por muitos como uma filosofia reducionista, que tenta elucidar a complexidade das relações humanas e do curso da história usando um modelo explicativo rudimentar - e errado.
As revoluções que deram origem aos estados comunistas do século XX, principalmente a União Soviética e a República Popular da China, foram alegadamente baseadas em princípios marxistas, embora esses “princípios” tenham sido adaptados e modificados pelas teorias de líderes revolucionários como Vladimir Lenin e Mao Zedong. O marxismo se presta a um número infinito de mutações; críticos apontam isso como evidência de que a teoria marxista é um instrumento perfeito para intelectuais preguiçosos ou mal-intencionados.

A teoria marxista afirma que é necessária primeiro a existência de uma sociedade capitalista para que, depois, ocorra uma revolução proletária e a implantação do socialismo, seguido pelo comunismo. Esse é um dos postulados básicos do marxismo. Mas não havia na Rússia czarista, nem na China imperial, as condições do capitalismo industrial que Marx considerava essenciais para a revolução. A economia dos dois países era predominantemente agrária e atrasada industrialmente; portanto, de acordo com Marx, não poderiam ter ocorrido revoluções nesses países. A implantação do socialismo na Rússia e na China não foi resultado de revoluções proletárias, mas de movimentos liderados por intelectuais e políticos, com a participação de camponeses e soldados, que apenas substituíram governos imperiais autoritários por governos comunistas totalitários.
O colapso da União Soviética e o repúdio da economia marxista pelo Partido Comunista da China marcam o fracasso empírico do socialismo e provam o erro da visão marxista da propriedade estatal dos meios de produção em uma economia centralizada. A partir daí o marxismo não pode mais ser considerado um modelo alternativo real para a economia e a organização do Estado.
Mas o marxismo está mais vivo do que nunca. A explicação desse paradoxo é dada por A.C. Grayling[1]:
As ideias marxistas permaneceram altamente influentes como força cultural e filosófica, principalmente na análise e crítica de tendências nas artes e na mídia, em certas escolas de pensamento sociológico, no pensamento feminista e como postura para críticos independentes de quase tudo. No mundo de escolhas do professor politécnico confortavelmente assalariado e de jaqueta de couro, a retórica marxista pode ser combinada com (digamos) ideias lacanianas – ou mesmo quaisquer ideias – para gerar dissidência à la carte. Alguns desses retóricos ficariam horrorizados se os arranjos que atacam realmente deixassem de funcionar, e ainda mais horrorizados se fossem obrigados a arregaçar as mangas e lidar com a alternativa, talvez com indivíduos humanos famintos para alimentar e turbas violentas e enfurecidas para apaziguar.
[1] Grayling, A.C. Ideas That Matter: The conceps that shape the 21st century. Basic Books, 2010, p.227
Esse texto é parte do meu livro Marx Não Era Marxista, que será lançado no próximo ano.


